Essencial à Vida, Essencial à Morte.

Uma lágrima escorreu sobre o seu rosto, Isabella ergueu o olhar para o espelho e viu o resultado do tempo que ficou deitada em sua cama, seu rosto estava amassado e seus cabelos negros estavam despenteados, levou o lenço à lágrima e a secou.

Uma leve brisa tocou seus cabelos e acariciou as cortinas de seu quarto, olhou através da janela e viu o fruto do desenvolvimento de sua época, um céu acinzentado devido às torres de gases produzidas pelas indústrias, dirigíveis e balões de ar quente cortando o céu, navios atracados no porto e automóveis ao longo das estradas transportando seus senhores, todo aquele maquinário emitindo de alguma maneira aquela fumaça cinzenta.

_ Como ousa querer frear todo o desenvolvimento da humanidade, acabar com o seu próprio sustento e a fonte de renda que lhe concedeu o estudo que tens hoje? É assim que pretende agradecer-me, eu sabia que não devia tê-la enviada para a Europa para estudar, mas sua mãe insistiu, para então voltar cheia de ideias absurdas. Sorte tenho eu de ter ao meu lado Lorde Veiga, o qual retornará de seus estudos em São Paulo para nos ajudar.

Essas foram as palavras de seu pai, Sr. Addo Gregório, dono da maior parte do parque fabril de Desterro, produzindo ferro para a criação das mais novas Maria Fumaças, aperfeiçoamento de sua autoria, a qual transportaria para o continente suas mercadorias, pois também atuava em outros setores, para o continente com maior velocidade e segurança.

Lorde Veiga, o qual seu pai tinha tanto orgulho, é seu genro, também conhecido por Augusto Veiga. Isabella e Augusto estavam casados há seis anos, um belo casal, conheceram-se numa viagem de dirigível, quando ele a convidou para uma dança.

Augusto regressava de São Paulo de trem, promovendo a indústria que seu sogro erguia. Isabella ouviu ao longe o som do apito da Maria Fumaça, sabia que seu amado havia chegado, quando uma de suas empregadas bate na porta de seu quarto avisando da chegada de Augusto, conforme previra.

Foi até o banheiro e começou seus preparativos estéticos para ocultar sua tristeza, não queria preocupar Augusto com seus pensamentos, embora soube-se que iriam informa-lo, mas não da maneira que ela queria, havia visto casos semelhantes na Europa.

Escolheu seu melhor vestuário para agradar seu marido, colocou um vestido branco cheio de rendas, junto com um xale vermelho sobre o ombro, além de utilizar uma fragrância para captar a atenção de seu amado.

Dirigiu-se até a sua carruagem, pois não havia se acostumado aos modernos automóveis a vapor, além do fato de poucos poderem manter carruagens tão luxuosas, seu pai insistiu em manter o antigo meio de transporte para ela. Ao menos, nisso, concordavam.

Ao chegar à Estação Ferroviária Maria Gregório, nome dado em homenagem a sua mãe, desceu da carruagem e olhou mais uma vez para o céu, ainda estava cinzento e morto, começou a divagar, mas seus pensamentos foram interrompidos por uma voz familiar, chamando pelo seu nome. Virou seu rosto e lá estava Augusto Veiga, descendo as escadarias para abraça-la e beija-la.

Enquanto se abraçavam, uma lagrima ameaçou escorrer pelo seu rosto, mas a conteve, e em meio a todas as suas emoções, ambos tiveram pensamentos semelhante, pois haviam tentado ter um filho há anos, e quando ela engravidou, ela deu a luz a uma criança morta.

Porém o pensamento dela terminava pensando no ar, o respirava, e este circulava através de seu corpo de maneira a ser essencial a sua vida, as suas criações, e no fim, foi essencial à morte, pois este estava infectado e sujo.

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2 respostas a Essencial à Vida, Essencial à Morte.

  1. Gostei bastante do conto, fala da realidade do mundo, contaminado e sujo pela poluição e as pessoas só pensam no progresso fechando os olhos para o que mais é importante[:)]

  2. “O natimorto”. Bacana rapaz, acho ainda muito polido, pra mim é novidade ler coisas assim. sou um leitor de coisas mais sujas e brutas, como Charles Bukowski e Rubem Fonseca. Mas bacana! Te achei usando o botão no canto superior direito: Visitar Blog aleatório. Acho que tive sorte!