Olhos Vermelhos.

[Recentemente conversando com minha namorada sobre o aoLimiar, esta me diz que escrevia contos no passado, ela então me enviou o inicio de um deles, o qual eu tive a idéia de continuar, e pedi para ela fazer o mesmo, eis o resultado, duas histórias com inicio semelhantes, mas com o desenvolver totalmente diferente, acessem o conto dela no link: Um Mistério, um Velório e um Casamento, boa leitura!]

Era 21 de Agosto de 1885, todos estavam eufóricos com a inauguração da nova biblioteca da cidade, todos os moradores estavam lá para prestigiar esse momento tão solene e importante, porém, o que ninguém sabia era que nem todos estavam lá.

Em um lugar escuro da mata que cercava a cidade, algo grandioso estava para acontecer:

– Já esta tudo pronto, leve a criança para o lugar seguro e afastado da cidade, por favor Matias, nunca conte a ninguém sobre isso.

– Ok, ninguém nunca saberá o que houve aqui.

Após Matias terminar de proferir suas palavras, a criança, que aparentava ter nove anos, abre os olhos, lançando uma estranha luminosidade vermelha do olho esquerdo.

– O que é essa luz vermelha saindo de seus olhos? – Pergunta Matias, largando a criança, que antes estava em seu colo envolto em um manto de algodão marrom que a cobria por inteiro, deixando somente seu rosto a mostra. A criança caiu no chão, num baque metálico, devido a uma estranha parafernália acoplada em suas costas, com fios que invadiam seu corpo em vários pontos.

– Maldição! Achei que havia o drogado o suficiente para somente acordar no dia seguinte. – Diz o Estranho.

– Isso não responde a pergunta… – Nesse momento a criança apoia-se nos braços e começa a emitir sons estranhos, como se seu corpo estivesse mudando, ela começa a gemer e a babar como um cachorro com raiva e ao levantar o olhar para Matias, este congela de medo, e ao olhar para o lado, vê que seu companheiro não estava mais lá.

Seguiu-se por um grito de dor e horror na floresta, mas ninguém o ouviu, pois no exato momento, o Prefeito Ernesto Caldas subia no palanque para dar o seu discurso.

-Povo de Canelas, hoje nossa cidade passa por um momento de progresso, modificações e prosperidade, essa biblioteca não nos trará apenas conhecimento, mas o reconhecimento que nossa cidade tanto esperava.

A multidão aplaudiu condolentemente, aqueles mais chegados ao partido do Prefeito Ernesto subiram no palanque para parabeniza-lo, e o restante da multidão se dispersou, assim como Samanta e Augusto, namorados, filhos do Prefeito Ernesto e do vice-prefeito e banqueiro Joacemir Fraga, respectivamente. Seus pais eram amigos de infância, e estudaram na mesma faculdade.

– Recordas daquele seu sonho de trazer conhecimento àqueles que não o podiam alcançar, parece que seu sonho se tornou realidade. – Proferiu Augusto, enquanto caminhavam pela Praça de Canelas, ao pôr do Sol, que banhava o céu com seus raios avermelhados e tocava suas faces brancas. Samanta retirou uma mecha de cabelo castanho da frente de seus olhos, também castanhos, e disse:

– Sim, me recordo. Agora as pessoas poderão viajar sem sair do lugar, adquirir conhecimentos por conta própria, imagino os inventos advindos desta pequena ação, a abertura da biblioteca. – Samanta olhava para o céu, como se sua mente não estive mais consigo, quando ouviu um ruído na mata. Ao olhar na direção do som, avistou um vulto, mas este rapidamente desapareceu.

– Você viu Augusto? Havia uma criança na mata! – Disse Samanta, eufórica e ao mesmo tempo preocupada.

– Não vi nada, querida. Acho que você esta imaginando coisas depois da concretização de um sonho. – Afirmou Augusto sorrindo para ela.

O trajeto até suas casas fora tranquilo e o mesmo ocorreu durante o jantar, onde discussões sobre o futuro da cidade eram frequentes. Após o jantar, Samanta se dirige ao seu quarto e começa a se aprontar para dormir, apagou a luz de seu quarto e tentou, mas ficou acordada até a meia noite, quando adormeceu num sono leve e instável.

No meio da noite, o som do piano de calda é ouvido, Samanta levanta num susto, temendo a ação de um ladrão, não acende as luzes de imediato, mas toma em mão uma lamparina, objeto que pertencia a sua família há anos, acendeu-a e dirigiu-se a sala.

Descendo as escadas do casarão, lentamente se posiciona para avistar quem está próximo do piano, avista uma criatura pequena, uma criança, envolta num manto marrom, lembrou-se do vulto que avistou na praça de Caldas, mas desta vez o vulto não usava um capuz, era careca e tinha um cabo grotescamente inserido em sua cabeça.

Ao continuar se movendo, bloqueando a luz da lamparina com a mão, viu que seus pais ao lado da criatura. Aproximando-se mais, Samanta consegue ouvir a conversa entre eles.

– … eu não quero voltar para aquele lugar escuro, tenho medo, não tenho amigos… – Dizia a criança.

– Se você não voltar irá morrer, seu organismo não poderá viver muito com as alterações que realizei por muito tempo. – Disse o Prefeito Ernesto. – Se você viver aqui fora, as conexões irão infeccionar, levando você a morte, além do mais, você não vai conseguir uma vida normal.

– Mas… mas, então, por que nasci assim, papai?

Ao lançar no ar as palavras papai, Samanta soltou um breve grito, que não deixou de ser percebido pelos seus pais. Lembranças de seu irmão falecido quando tinha sete anos de idade vieram a tona. Seus pais se entreolharam e Linda, mãe de Samanta, falou:

– Samanta, pode vir até aqui, por favor.

– Quem é essa cria.. digo, criança, mãe? – Falou Samanta enquanto observava a criança. Ela quase não tinha cabelo, como se fosse cortado com uma lamina de barbear, vestia um manto marrom e não usava nenhum tipo de calçado, provavelmente não usava nenhuma vestimenta por baixo do manto.

Ao encontrar o olhar da criança, esta o desvia, ficando de costas para Samanta e os seus pais, mas ela nota que havia algo de estranho em seu olho esquerdo, mas não viu o que, devido a pouca iluminação.

– Samanta, teremos algumas coisas para discutir no café da manhã, por enquanto, vá para sua cama e durma. – Disse seu pai com uma voz calma, mas de maneira que ela não viesse a questiona-lo.

Nesse momento, Linda segura o braço de Samanta e a conduz para o seu quarto, mas Samanta teve um ultimo vislumbre da criança, sua cabeça tinha uma espécie de implante, cor de cobre, mas não conseguiu distinguir mais que isso.

Em seu quarto, Samanta e sua mãe sentam-se na cama, quando a filha começa a desferir várias perguntas, eis que Linda responde:

– Amanhã discutiremos isso, esta bem Samanta? Agora vá dormir.

Não havendo outra maneira, Samanta teve que se sujeitar a vontade de seus pais e foi dormir, cochilou vagamente.

Acordou com o Sol em seu rosto, levantou-se e vestiu-se para o café da manhã, enquanto perguntas borbulhavam em sua mente.

Foi até a cozinha, onde encontrou apenas sua mãe à mesa, esta olhou para ela e disse:

– Sente-se e tome seu desjejum. E prepare seus ouvidos para me ouvir atentamente. – Samanta sentou-se e tentou comer, mas estava sem fome, ficou petiscando. – O que você viu nesta noite, deve ser mantido em segredo, e sim, aquele é o seu irmão mais novo, que supostamente faleceu aos dois anos de idade. Seu pai, caso você não se recorde, trabalhou por um tempo na Santa Universidade da Republica, como Biomanipulador, ajudou muitos, e quando nos mudamos para Canelas, ele trouxe seu laboratório consigo, mas seu tempo foi sendo tomado pela politica, até tornar-se o que é hoje. – Nesse momento, Linda olha pela janela, toma um gole de café e retorna à narrativa, porem, de maneira mais cansada, como se recordar de tais fatos trouxessem amarguras do passado.

– Quando seu irmão mais novo nasceu, estávamos muito felizes, até descobrimentos que seu corpo não aguentaria o próprio crescimento. Seu pai teve a ideia de reabrir seu laboratório, para poder cura-lo. Após vários procedimentos que não tenho conhecimento, seu pai conseguiu deixa-lo vivo, mas este teria que viver confinado, no laboratório.

Após outros detalhes, como não voltar a tocar no assunto e guarda-lo a partir daquele momento, Samanta terminou seu café da manhã e encaminhou-se para a prefeitura, não para conversar com seu pai, mas para trabalhar, exercia a função de Orientadora na Secretária da Educação, porém, no meio do caminho, resolveu ir até a nova biblioteca consultar alguns livros sobre biomanipulação.

Chegando ao recinto, encontra-o particularmente cheio, alguns idosos e poucas crianças consultavam as estantes, Samanta correu para a área medica, onde encontrou poucos exemplares, mas suficientes para esclarecer suas duvidas.

Pegou dois exemplares, Bioquímica Humana e Biomanipulação Laboratorial: Estudos de manipulação em cobaias, esse ultimo era uma tese de seu pai. Procurou uma mesa para sentar-se, mas as pessoas vagavam por elas, isso tirava a atenção dela, procurou uma das salas para estudos individuais.

Encontrou tais salas, entrou e abriu uma das janelas, esta dava para os fundos da biblioteca, havia algumas árvores plantadas e em seguida um muro aos fundos com uma trilha de tijolos vermelhos, separando a mata verdejante.

Sentou em sua mesa, e começou a estudar os livros. Iniciou pelo livro de bioquímica para saber onde estava pisando, pelas suas leituras, bioquímica é o estudo dos processos químicos que ocorrem em organismos vivos. A partir dessa premissa, já tinha uma noção do que seu pai estudava. Começou, então, a folhear a tese de seu pai.

Seu pai manipulava os hormônios de ratos e outros animais, de maneira a conseguir diferentes efeitos, seja força, inteligência, até mesmo a morte, em alguns casos.

Samanta perdeu-se nas horas e na leitura, e não percebeu o vulto que aproximava-se lá de fora. Quando o vulto chegou até a janela, Samanta se deu conta da presença e gritou, devido ao susto.

– Calma Samanta, sou eu. – Disse Augusto, rindo do susto que deu na namorada. – Seus pais mandaram procura-la, estão preocupados com você, pois não apareceu na prefeitura.

– Estava.. – Nesse momento, Samanta lembrou-se das orientações da mãe, mas ao mesmo tempo, confiava em Augusto. – …olhando uns livros, para orientar um professor. – Disse por fim Samanta. Não gostava de mentir para ele, mas não tinha escolha.

O casal então se dirigiu a prefeitura, onde Samanta trabalhou normalmente o resto do dia, exceto pela reunião que durou até o inicio da noite.

– Vamos Samanta, meu marido esta na nossa auto-carruagem me esperando, esta escuro e chovendo, eu lhe dou uma carona até sua casa. – Ofereceu Diana, uma de suas colegas de trabalho. Samanta aceitou.

Ao saírem da prefeitura, uma chuva caia fracamente, mas as nuvens negras no céu indicavam que esta poderia ficar mais forte.

Dentro da auto-carruagem, eles foram conversando, até que Diana diz:

– É incrível como essas criaturas estranhas sempre aparecem com as condições certas, noite de chuva. – Tal criatura encontrava-se no meio da rua.

Ao observar a criatura, Samanta lembrou de seu irmão. Era ele. Ele levantou o olhar e uma luminosidade vermelha apareceu. Aragão, o marido de Diana tentou buzinar, para tira-lo do caminho, e manteve o curso, de maneira a atropela-lo. A criança não se moveu, muito menos a auto-carrugem.

Sob gritos das mulheres, Aragão desvia da criança, mas ao ultrapassa-la, o automóvel para. Estranhando a ausência de movimento de sua auto-carruagem, Aragão põe a cabeça pela janela e olha para trás, surpreende-se ao ver a criança segurando seu automóvel. As mulheres fazem o mesmo, e assustam-se da mesma maneira.

Com uma força incrível, a criança levanta a auto-carruagem, enquanto seus passageiros saem na chuva aos prantos, e à vira de ponta cabeça.

Aragão saca seu revolver, ao ver o brilho da arma sob o luar, Samanta grita para não feri-lo, mas Aragão não ouve e dispara, mas erra a criatura pois essa já havia se movimentado e estava parada diante dele.

– Pelos deuses do vapor, que tipo de criatura é você? – Diz Aragão, antes da criatura desferir um golpe em seu estomago, fazendo-o curvar-se, e assim ela o atinge com um golpe na cabeça. Deixando Aragão no chão, morto.

Diana fica desesperada e tenta ir ao encontro de seu marido, mas Samanta a segura, nesse instante a criatura olha para elas, lançando-lhes uma luminosidade vermelha, do que parecia ser um olho mecânico, o lado esquerdo de seu rosto apresentava escoriações, enquanto caminhava na direção delas seu manto oscilava ao vento.

Neste instante, o Prefeito Ernesto aparece carregando uma mochila, Samanta fica feliz em ver seu pai, mas fica preocupada ao mesmo tempo em ver seu estado, manchas de lodo por toda a sua roupa e alguns ferimentos no rosto.

– Afastem-se. – Disse Ernesto.

– Pai, ele matou Aragão e virou a carruagem, o que você pretende fazer? Pergunta Samanta, enquanto corria com Diana para abrigar-se atrás do Prefeito.

– Algo que eu devia ter deixado a natureza fazer. Mata-lo.

– Mas.. como… – Nesse momento a criatura começa a caminhar em direção deles. Ernesto olha para Samanta e diz:

– Da mesma maneira que o mantive vivo. Algumas injeções de adrenalina e outros hormônios para controle interno. – Ernesto tira da mochila uma agulha acoplada de um tubo plástico, aplica a injeção e prende os tubos em seu braço, e liga um mecanismo oculto na mochila. – É uma pena que essa combinação de hormônios levem as pessoas a loucura. – Ao terminar a frase, ele olha para sua filha e abre um sorriso. – Cuide bem de sua mãe.

A criatura já estava diante dele e acerta a barriga de seu criador, mas esse se contrai e segura o braço da criança, Ernesto levanta o olhar, seus olhos já estavam vermelhos e ele acerta um gancho na criatura, ao que esta sai do chão e cai pesadamente, rolando pela estrada de pedra.

A criança se levanta, mas perde seu manto, ficando nua, e eis que todos veem, dois cilindros engatados em suas costas, onde pequenos canos saem da lateral conectando-se ao longo de seu corpo, enquanto um tubo central ligava os dois cilindros à sua cabeça. Diante do espanto de todos, Ernesto consegue dizer:

– Ele consegue… através da conexão central… enviar estímulos elétricos do cérebro… para ativar a liberação de hormônios…

A criança então se levanta e corre em direção a Ernesto, e estes começam a lutar de igual para igual. Socos e chutes eram desferidos com uma força descomunal. Até o momento que a luta começa a ser levada pela criança, e ela começa a defender todos os golpes de Ernesto e o atinge no estomago, ele não aguenta e vomita agachado no chão, e a criança parte para cima dele, mas Ernesto consegue se levantar com uma seringa na mão e antes do golpe dela, perfura a criatura no pescoço antes de levar o golpe final da mesma.

Ernesto cai no chão, começando a babar devido aos efeitos colaterais das drogas injetadas, enquanto a criança afastasse tendo seus vasos sanguíneos estourados, enquanto babava sangue, ambos agonizavam no chão.

Samanta ao ver o fim próximo do pai, corre em sua direção para tentar salva-lo. Ouvia-se ao longe o som da Patrulha Municipal se aproximando, mas nada pode ter sido feito, ambos estavam mortos.

No dia seguinte, o vice-prefeito Joacemir Fraga discursa diante do fato, lembrando-se das obras de Ernesto para que o povo não esqueça que ele fora, um ótimo prefeito. O local da luta já havia sido limpo, sendo que as informações passadas a imprensa foram mínimas, para evitar tumultos e discussões éticas a respeito do que Ernesto havia feito. Boatos havia aos montes, dizendo que Ernesto havia vendido a filha ao demônio e depois enfrentou o tinhoso sozinho, de que um animal selvagem apareceu e tentou matar os funcionário públicos, mas nenhum chegava próximo da verdade.

Samanta e Diana seguiram suas vidas normalmente, tendo que contar a história inventada por Joacemir toda vez que pediam detalhes daquela noite. Embora Samanta ainda pesquisa-se sobre biomanipulação, isso nunca a levou muito longe, a área medica não era a sua especialidade, e sua mãe pouco falava.

Enquanto as vidas dessas pessoas seguiam seu rumo, num local seguro e afastado da cidade, um Estranho adentra um laboratório onde humanos eram mantidos vivos dentro de cilindros com fluidos especiais e conectados a vários tubos.

O estranho coloca sua fase próxima a um dos cilindros, iluminando assim seu rosto, era Joacemir, banqueiro e financiador de pesquisas para criação de novos fármacos.

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2 respostas a Olhos Vermelhos.

  1. Ficou muito bom o conto, a mistura de historias, com o meu começo e o seu fim.O conto ficou muito bom,=)

  2. A idéia é muito bacana, eu li a outra versão, fico devendo ler a sua agora. eu volto aqui com mais calma para isso. Espero que vocês também me façam uma visitinha.
    http://aijo.aolimiar.com.br/