Sala Fechada.

Estavam os setes estirados pela sala, as janelas forneciam aos seus corpos o calor necessário através de uma luz aconchegante, enquanto da porta vinham senhores de diferentes vestimentas, sempre trazendo o que comer, beber e pensar.

Viviam assim a não sabe-se quanto tempo. E já haviam construído e crescido muito, estantes guardavam livros, pinturas incrementavam as paredes, camas e tabuleiros os descansavam e os divertiam, e todo esse material obtido a partir dos insumos fornecidos pelos senhores de diferentes vestimentas.

Então eles ouviram três batidas na porta, como usual, e um senhor adentrou a sala, dois dos viventes da sala levantaram-se empolgados para cumprimenta-lo, enquanto cinco o cumprimentam cordialmente e o ultimo fez questão de não saudá-lo.

“Bom dia amigos, vejo grande progresso nos seus artefatos, muito bem, tenho certeza que o grande Abel ficará satisfeito em recompensa-los.” Disse o senhor cujo couro cabeludo brilhava a luz das janelas e trajava um manta branca ornamentada por uma faixa cinza na cintura.

“Que ótimo, o que ganharemos dessa vez companheiros? Novas roupas para nos aquecermos, mais conhecimento?” Assim falou Maria, uma das viventes que se empolgava com as visitas periódicas destes senhores.

“Quem sabe Maria, quem sabe. Provavelmente você e Sara irão receber as benfeitorias de Abel, devido ao seu bom comportamento.” Pronunciou o senhor.

Assim se passou mais uma visita, com bajulações de um lado, esperanças do outro. E após a saída do senhor, aquele que não ousou cumprimenta-lo, levantou a voz.

“Vocês não vêem que somos prisioneiros aqui? É Abel para cá, Abel pra lá, quem sabe quem é esse Abel? Por que ele não entra aqui para conversar conosco? É sempre esses caras de vestido branco, ora é comida e outros utensílios…”

“Lucio!! Como ousar profanar nossa sala com palavras tão impias!!!” Gritou alvoroçada Sara.

“Acalme-se Sara, deixe ele se expressar. E de certa forma, ele esta correto.” Pronunciou-se Pedro.

“Pedro?!! Pensei que estivesse no nosso lado?” Perguntou Maria.

“Eu tenho as minhas dúvidas e não será esses senhores que irão proibir tais pensamentos”

“Pedro tem razão, vocês, alguma vez, já pensaram em passar pela porta? Já imaginaram o que há lá fora? De onde vem todo o material que trabalhamos? De onde vem esta luz das janelas?” Falou Lucio.

“Você não sabe que tais pensamentos são proibidos!” Falou Sara, que em seguida foi completada por Maria: “Assim como a passagem pela porta e atos violentos contra os senhores!”

Todos já haviam presenciado tal discussão, porém estas estavam se tornando mais constantes, Lucio estava ficando impaciente quanto à atitude de seus companheiros. Gostava de todos, mas não conseguia viver assolado por estas duvidas, ele precisava saber.

E foi naquela noite que ele acordou Pedro.

“Acorda Pedro, anda Pedro, não finge que esta dormindo que eu sei que você não está!”

“Poxa Lucio, por que você esta me acordando no meio da noite, o que você esta tramando?”

“Vamos sair pela porta! Hoje a noite.”

“Mas ele não é trancada?”

“Não, você não ouve que quando os senhores entram na sala, não há barulho de chaves nem nada, e noite passada eu tentei abrir a porta, e ela abriu”.

“Ok, e porque não saiu?”

“Não sei ao certo, medo do desconhecido, mas depois da discussão de hoje, decidi convida-lo para seguir comigo, você parece bem sensato a respeito dos meus pensamentos. E se você não querer, avise os outros sobre o meu ato”.

Pedro ficou pensativo por algum tempo, mas levantou os olhos e disse: “Vamos”.

Ambos levantaram-se e deslocaram-se até a porta, estavam nervosos, não tinham conhecimento do que havia lá fora. Abriram lentamente a porta e saíram de igual maneira da sala. Estavam em um corredor, com outras portas iguais as deles. Caminharam amedrontados na bruxuleante luz. Não havia ninguém por lá.

“Estranho, onde estão os senhores? Cadê o Abel?” Perguntou Pedro.

“Abel nunca existiu, Pedro” Afirmou Lucio.

“Que?”

“Eles usavam esse nome para nos colocar em coleiras, sempre soubemos o que era certo e errado, mas eles nos insistiam em dizer o que devíamos fazer.”

“E os senhores que víamos? Quem são eles?”

“Não faço ideia.”

“E por que nos mantinham cativos?”

“Não sei Pedro, não sei, agora pare de perguntar, lá há uma porta das grandes”.

Os dois viventes foram até a porta, empurram juntos até abri-la por completo, o Sol tocou seus rostos e estes caminharam até a cidade proxima.

“Não entendo essas coisas, veja esse templo, por que mantem pessoas presas?” Pensou alto Pedro.

“Não há resposta para muitas coisas na vida, e essas pessoas querem ficar presas, agora vamos para casa, não sei porque, mas sinto que tenho uma.” Disse sorrindo Lucio, e Pedro concordou. E Foram.

[Uma crítica envolvida em um conto, uma conto-crítica….]

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2 respostas a Sala Fechada.

  1. Muito bom seu conto, mostra como a humanidade esta fadada a prisão e ao menos nos damos conta disso, basta abrirmos os olhos e ir em busca do que realmente queremos e sim ter nossas próprias crenças e sermos capazes de fazermos nossas próprias escolhas !

  2. Rapaz, curti, mas acho que você pode desenvolver mais a ideia. ainda tá rasa. Se você desenvolver mais as personalidades deles. os livros que leem e as tentativas de abrir a porta. é uma ideia muito bacana pra ficar só neste continho. Trabalhe mais a ideia, se precisar de ajuda a gente conversa. Parabéns!