A Maldição de 2012.

Estava preso há vários séculos por incontáveis crimes cometidos em uma vida miserável, não havia um único dia o qual não fosse desdenhoso como a minha maldita passagem por este plano. Acordava, aguardava, comia, odiava, arrumava as partes inorgânicas do corpo e voltava a dormir. Não havia nada pior do que viver – eu disse viver?! – em uma sala branca e bem iluminada com um projeto de cama e de banheiro agrupados e estes atrás de um campo de força, isolando o prisioneiro e deixando-o sem chances de escapar, tornando a estadia totalmente indigna, vários já cometeram suicídio – e até mesmo isso é difícil de ser praticado – mas evitavam que objetos perigosos ou situações análogas estivessem por perto ou se realizassem.

Contos de prisioneiros que escapavam eram inúmeros e estapafúrdios, mas a minha oportunidade veio logo após o desjejum, onde me ofereceram a missão de ida – e se lhe agradassem, a volta – à um determinado planeta para investigar a situação de um cargueiro, dado como perdido há alguns anos, levantei os olhos procurando mais informações, e tudo que tive foram olhos afastados, rostos impassíveis e rabiscos em papeis. Aceitei.

Independente da missão, queria sair daquela espelunca e andar um pouco por aí. Pensei que viajaria sozinho, mas permaneci trancafiado a viagem toda e ao chegar em meu destino, lançaram a capsula na qual eu estava recluso. Minutos depois, senti o atrito da atmosfera na nave e em poucos segundos o impacto contra o solo, o qual foi como um sino que soa concedendo liberdade.

Do jeito que eles me enviaram, não pensei duas vezes em não realizar a missão, estava livre, e iria seguir vivendo. Mas por mais estranho que pareça, o planeta, o ar, as árvores, tudo era evoca sentimentos de saudade, mas não havia uma recordação plena, apenas uma sensação de deja vu. Caminhei e escalei até o topo de um morro próximo, o céu, embora de inicio era azul, agora dividia suas cores com tons alaranjados e olhando ao redor, não percebi nenhuma cidade, havia sido deixado em um planeta deserto, mais um ponto para minha vida miserável.

Voltei até a minha capsula e peguei a arma que me foi deixada, uma espada – estava afiada e assemelhava-se às espadas de uma província onde as pessoas tinham olhos puxados – a qual com ela poderia ao menos caçar para sobreviver. Como o meu transporte trazia memórias de minha estadia na prisão, resolvi procurar outro local para me abrigar, e ao caminhar ao longo do morro, encontrei uma caverna.

Nela, o ar era um pouco estagnado – mas muito melhor que o da prisão – e por mais estranho que pareça, o vento soprava de dentro dela. Curioso, resolvi explorar ela, e comecei minha caminhada. Foram algumas horas de pernadas, até que cai, por causa de uma pedra úmida e escorregadia, atingi minha cabeça contra o chão sendo que desmaiei.

Sonhos invadiam minha mente, destruía monstros abomináveis e caia ainda mais fundo, até que algumas gotas d’água acordaram minha mente e senti meu corpo fatigado. Não pensei em dormir, estava cansado de alucinações noturnas, e permaneci algum tempo sentado, esticando o corpo, até que um som vindo da escuridão chama a minha atenção. Me levantei e continuei a caminhada em direção às trevas. Passei por várias antessalas, uma mais escura e desinteressante que a outra, sendo que quando estava me sentido entediado ouvi uma voz, segui ela.

Ao virar um dos corredores, encontro uma alma viva entrando numa câmara e ao segui-la, vejo que ela estava ocupada por um grupo de pessoas, velhos com roupas surradas pelo tempo, alguns tinham peles azuis outros beje humano e o cinza consumia o corpo destes, me olhavam ora sérios ora espantados. Revivi um sentimento antigo, acendi uma fogueira do passado dentro de mim – e aos poucos eles se aproximavam de mim – e aos poucos fui levantando minha espada. Eles pararam.

Tentavam conversar ou argumentar comigo, não adiantava, eu queria me sentir vivo novamente, olhei para todos e deparei-me com uma garota de cabelos curtos castanhos com uma roupa exótica – aparentemente ela era totalmente orgânica, não usava pernas mecânicas ou coisas do gênero – quando corri para cima dela, os portões do inferno haviam sido abertos, para eles, é claro. Tentaram me impedir, mas minha espada sentiu o gosto do efêmero vinho da vida, dançando suave e profundamente sobre o peito daquele que tentou me impedir, outros vieram, outros fugiram, mas minha paixão aumentava e a minha vida também.

Fazia tudo aquilo com muita pericia, tentavam me atacar armados também, mas conseguia rebater seus golpes com minha espada, desmembrando uma cabeça aqui ou acolá, perfurando um coração e chutando quem atrevesse a apunhalar-me pelas costas. Não demorou muito até que todos estivessem desfalecidos ao chão, não encontrei a garota que pretendia atacar primeiro, até vê-la esgueirando por trás de uma rocha, corremos, e não pude deixar de expor um sorriso.

Chegamos em um salão, a garota estava parada diante de uma urna, com as mãos em forma de concha, pronunciando um mantra, me aproximei com esmero e saltei em sua direção com a espada sobre a minha cabeça, desferi um golpe cortando o corpo da garota ao meio, com uma gota de suor descendo a testa me levantei satisfeito e olhei para trás. Ela havia sumido e somente permanecia ali a urna, que agora brilhava, uma luz amarelada.

Abri a urna e encontrei um punhal de uma espada, mas era um punhal grotesco de madeira, pois a mão do guerreiro que a empunhasse fechava-se sobre dois números, que estavam um sobre o outro, um 20, o qual possibilitava a permanência do dedo indicador no interior do dois, e um 12. Com certeza, uma arma de extremo mal gosto. Rindo, puxei o instrumento para fora do compartimento, porém, ao retirá-la da urna, senti uma força correr sobre o meu corpo, deixando-o pesado e agonizando meu coração, como se uma desgraça ancestral caísse sobre mim de maneira que eu desconhecesse seu início, atingindo meus antepassados, perdendo-se na linha do tempo.

Larguei imediatamente o punhal, segurando meu punho com a outra mão, mas o punhal havia cravado em minha palma os números 20 e 12 – desconheço o motivo, mas minha mente trabalhava como se a marca já existisse há milênios – enquanto vultos dançavam e corriam diante de mim, não conseguia distingui-los pois sempre ficavam na minha visão periférica, então corri para sair daquela caverna infernal, passando pela sala dos ex-sobreviventes, tropecei em um deles e cai em cima de uma rocha plana, ela se quebrou revelando o painel de uma nave. O cargueiro! Mas quem era aquela garota? Com certeza não era uma tripulante, devido as suas roupas, fisionomia estranhas e aquele olhar fatigado que acompanha sua alma penada eternamente.

Levantei-me do painel, recomecei a correr, tentando achar a saída, mas não conseguia, naquele instante comecei a ouvir vozes, mas por mais estranho que seja, elas eram familiares, reconheci meu pai, com sua mão enfaixada, falando sobre uma maldição que havia caído sobre a família a tempos imemoriais, minha mãe também dizia o mesmo. Avôs e avós também eram ouvidos, entre outras vozes com dialetos estranhos. Atordoado com tantas vozes, sentei-me e esperei passar, mas elas continuavam, até que a garota de cabelos curtos apareceu, vestindo branco, eu já estava de joelhos suplicando para ela que parasse com as vozes, ela agachou, tocou meu queixo com sua mão e soprou delicadamente, enquanto ela erguia-se as vozes voltavam e sons explosivos ocupavam o ar, ela se virou e olhou fundo nos meus olhos e disse: “Feliz 2012”. E sumiu.

[Baseado em sonhos reais!?! E não há melhor forma de desejar um feliz 2012 à alguém].

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